O Poderoso Chefinho, em um primeiro vislumbre do cartaz ou do trailer, pode parecer uma animação apenas voltada para o publico infantil. Mas já em seus primeiros dez minutos os adultos podem soltar uma risada sincera com alguma piada feita através da harmonia entre o humor inocente e o ácido. É impossível não se identificar com o momento da infância em que ganhamos um irmão na chegada de um novo bebê em casa, a responsabilidade e o significado de ser o mais velho. Mas some isso ao fato de se ter um irmãozinho mandão, autoritário e com jeito de malandro. O Chefinho (dublado originalmente por Alec Baldwin) é a combinação perfeita de um adulto preso em um corpo pequeno e fofo, com a missão de boicotar a empresa Puppy Co., onde os pais de Tim (na voz de Miles Christopher Bakshi) trabalham. A Puppy lança no mercado animais de estimação que são um verdadeiro sucesso e acabam atrapalhando a vida perfeita que Tim levava sendo filho único, e que já estava bem conturbada com a chegada do caçula.

      O objetivo do baby boss na casa é reforçado durante a animação com palavras e imagens de pessoas substituindo os bebês por pets, o que entrega ao público uma involuntária, sutil e bem humorada reflexão da vida real nos tempos atuais. Algo nem sempre abordado no roteiro assinado por Michael McCullers, baseado no livro The Boss Baby, de Marla Frazee, já experiente na autoria e ilustração de livros infantis. Durante toda a produção é estabelecida a conexão entre o público e os personagens em um ritmo interessante da trama, nos permitindo ser o terceiro irmão. Mesmo com a presença de dubladores que já se consagraram na comédia, como Lisa Kudrow (eterna Phoebe de FRIENDS), Jimmy Kimmel e o já mencionado Alec Baldwin, o humor não é exatamente o ponto mais forte mas funciona na maior parte e o timing geralmente acerta (como dito no início do texto), não deixando a animação enfadonha ou arrastada demais, ainda que haja algumas inconstâncias. Com mensagens sobre o significado e a importância do ambiente familiar a animação joga na tela agradáveis situações muito bem vindas, ilustrando os desafios da infância e a insegurança referente a um repentino abandono dos pais na árdua disputa por atenção. O exagero por parte da carga dramática é onde o roteiro trabalha da pior forma, o que faz parecer uma tentativa de atingir o emocional mesmo que isso não seja de fato necessário. Muitas vezes a produção tenta se levar à sério demais com diálogos e discursos que não se encaixam muito bem na proposta inicial e isso acaba tornando-se irregular e irrelevante.

      A apresentação de Tim ao público pode soar irritante algumas vezes, deixando o personagem com uma imagem de mimado e gerando uma certa antipatia. Ok, sabemos que se trata de uma criança em uma animação de temática propositalmente absurda, mas a forma como Tim se manifesta em alguns casos termina por ser um escorregão. Todo o carisma é automaticamente transportado ao próprio Chefinho que, querendo ou não, assume o papel temporário de antagonista.

      O veterano Hans Zimmer é o responsável pela trilha sonora, com um trabalho que une as melodias suaves e divertidas da vertente infantil com notas mais sólidas e pesadas representando o lado chefe autoritário em tons quase ameaçadores (para um bebê). A canção Blackbird dos Beatles também marca presença, sendo a música cantada para Tim dormir e soma-se muito bem ao roteiro. A história flui sob a direção competente de Tom McGrath, que também dirigiu Madagascar e Megamente, mostrando que sabe o que faz assumindo animações. E neste ponto é impecável, trazendo uma direção de arte muito bonita e diferenciada em certos pontos. Como em um determinado momento onde a animação se torna 2D, com traços totalmente diferentes do original. Esse jogo com o estilo de desenho torna tudo muito bonito e agrada aos olhos.

      A DreamWorks já mostrou mais de uma vez ser capaz de acompanhar ou até mesmo superar a tão amada (e as vezes superestimada) Pixar. Grandes sucessos como Shrek, Kung Fu Panda, Como Treinar Seu Dragão e Madagascar refletem a qualidade das franquias e O Poderoso Chefinho é mais um exemplo de trabalho bem feito, mas não livre de falhas, apesar de uma franquia ser desnecessária. Em suma, a animação acerta em sua proposta com leves escorregões mas conquista principalmente por ser bonitinho, fofinho e divertido.