É inegável a importância de King Kong para a história do cinema. Desde seu lançamento em 1933 o gorilão mais famoso do mundo tem se tornado um grande símbolo da Sétima Arte, e agora, através de Kong – Ilha da Caveira, ele retorna mais pop do que nunca. E é exatamente disto que se trata Kong: ser pop. O filme não foge de sua premissa um segundo sequer e isso não é algo ruim, mas não espere profundidade em um roteiro feito para ser pipocão. Adrenalina, efeitos visuais de tirar o fôlego e intensidade. Estas são características marcantes no longa e que não fazem feio junto à trilha sonora épica de Henry Jackman enquanto, pelas mãos de John Gatins e Dan Gilroy, temos um roteiro que não demora em dar ao público o que ele quer, sem medo de mergulhar na mitologia do primata e mostrar escancaradamente um gorila de 30 metros. A dupla parece confortável com a situação e isso mostra maturidade o bastante para lidar com uma criatura gigantesca em uma ilha misteriosa como se fosse um churrasco de domingo. O Godzilla de 2014 ficou devendo essa segurança e o monstro título acabou quase não dando as caras, tornando-se coadjuvante em sua própria história.

      O longa se passa nos anos 70 e mostra um grupo de expedição até a Ilha da Caveira com o objetivo de provar ao mundo que o Kong é real. O grupo é criado com uma iniciativa da Monarch, empresa que investiga organismos terrestres não identificados e serve de ponte com o filme do Godzilla, trazendo à tona a primeira pista do futuro crossover. E quem defende os ideais da Monarch é Bill Randa, personagem de John Goodman, motivado a apresentar provas concretas da existência de seres desconhecidos. Goodman entrega um personagem convincente em sua proposta, mas que não se difere de outros personagens no quesito “cumprir papéis”. Todos estão bem inseridos no contexto da trama e fazem o que devem ser feito, apresentando um bom trabalho mas sem um grande destaque de atuação. O James Conrad de Tom Hiddleston e a fotógrafa Mason Weaver de Brie Larson fluem naturalmente com a narrativa, formando uma trindade bem humorada ao lado de Frank Marlow, um piloto da Segunda Guerra interpretado por John C. Reilly. O humor, aliás, é algo fortemente presente no roteiro de forma pontual e sem momentos caricatos. O principal alívio cômico fica a cargo do personagem Glenn Mills, interpretado por Jason Mitchell, que possui o timing perfeito para comédia e ameniza a tensão, tornando a situação  mais agradável e até mesmo palpável ao público. O Coronel Packard de Samuel L. Jackson é o único a trazer um peso maior para a trama, apresentando um homem atormentado pela guerra do Vietnam e carregando consigo uma grande bagagem referencial a filmes do gênero. É praticamente impossível não lembrar de Apocalypse Now ao vermos os militares embrenhados na selva, os helicópteros, as cores quentes e as tomadas de pôr-do-sol embaladas pelas músicas setentistas fortemente presentes no filme. Até mesmo o material de divulgação apostou em uma pegada muito próxima a de Apocalypse Now, nos transportando diretamente para o terror do Vietnam sem necessariamente tratar-se disso. Toda a direção de Jordan Vogt-Roberts é construída sobre esse belo visual.

      Jordan dirige aqui seu primeiro blockbuster após uma sucessão de filmes independentes e já chega ciente do que se trata a ideologia de King Kong, mantendo sua direção sempre acompanhando a brutalidade do gorila e enriquecendo seus movimentos com closes e ângulos variados durante a ação. A imponência de Kong torna-se ainda mais clara com a câmera fazendo parte da ação e auxiliando o público a testemunhar o ataque em assentos VIP. O diretor é capaz de se equilibrar entre o horror e o humor presentes no roteiro, seja através da imagem em plano aberto de soldados cansados após o embate ou o foco em um bubble head durante um tenso momento. Mas e a principal peça desse jogo?

      Kong possui um visual extraordinário e muito mais ameaçador do que nos filmes anteriores. Enquanto a produção de Peter Jackson trouxe em 2005 um remake mais próximo do original, sendo considerado a versão definitiva do grandalhão na época (e manteve-se na década de 30), agora temos um reboot totalmente diferente do que já foi abordado. O monstro está menos humano e mais selvagem, não propenso a direções que envolvam momentos bonitinhos e engraçados com a figura feminina. Nada contra essa relação de amizade entre Kong e Ann Darrow (a personagem loira interpretada por Fay Wray em 33 e Naomi Watts em 2005), mas já que haverá um confronto com Godzilla, o Rei dos Monstros, nada mais justo do que adaptar um primata que afasta-se do sentimentalismo e apresenta uma roupagem feroz. Toda a harmonia dos efeitos visuais em conjunto com o cenário contribui para que isso funcione e proporcione o ambiente mais hostil possível, resultando na presença assustadora não apenas do macaco, mas de outras criaturas incomuns que vivem ali. Cada canto abriga um perigo diferente e é nesse ambiente que Kong foi forjado, tendo em suas cicatrizes o reflexo de anos de confrontos que certamente o moldaram e adaptaram ao confronto mais aguardado de todos.

      Sendo assim, Kong – Ilha da Caveira é um filme que pisa em um novo território na mitologia do gorila e abre caminho para o aguardado encontro com o lagarto japonês. Fugindo completamente de maiores aprofundações e apresentando uma história rasa que funciona, o objetivo da produção em nos entregar puro entretenimento foi alcançado com sucesso. É divertido, tenso e movimentado, recheado de ação e diálogos simples (mas que também funcionam), além de uma gama de efeitos que saltam aos olhos e nos faz delirar com as criaturas que surgem. Enquanto o duelo de gigantes não chega, vale muito a pena visitar a Ilha da Caveira e conhecer de perto esses animais fantásticos e onde habitam.

  • Adilia Mical Cardoso

    Primeiramente gostaria de parabenizar o autor dessa crítica! É incrível como sabe utilizar das palavras para nos escrever uma obra prima dessa!
    Muito interessante todos os aspectos relevantes sobre o filme o que me instigou muito em querer ver…

    PS: adorei o trocadilho da ultima frase rsrsrs

    Parabéns!!!