John Donne já dizia “nenhum homem é uma ilha, sozinho em si mesmo”. Este pequeno trecho, parte de um pensamento muito maior, reflete nossa necessidade básica de convívio social. Sempre seremos parte de algo e isso provavelmente jamais mudará. É nisso que o filme Passageiros, escrito por Jon Spaihts e dirigido por Morten Tyldum, se sustenta. Com um vislumbre da imensidão do espaço somos rapidamente apresentados a Avalon, a nave interestelar responsável por transportar 328 tripulantes e 5000 passageiros até o planeta colônia intitulado de Homestead II, com o intuito de aliviar a superpopulação da Terra. Todos os ocupantes da nave encontram-se em hibernação suspensa e assim deveriam permanecer por 120 anos, acordando apenas quatro meses antes da chegada. Mas após uma falha no sistema um dos passageiros, Jim Preston (personagem de Chris Pratt), desperta antes do tempo. Para ser mais exato, noventa anos antes do tempo.

      
A partir desta premissa temos ingredientes o bastante para uma ficção científica de sobrevivência espacial. Mas não é bem só isso que acontece aqui. Como já divulgado,
Jennifer Lawrence acaba surgindo como Aurora Lane, o improvável interesse amoroso de Jim. Podemos dizer que a produção é descascada em três diferentes camadas: adaptação e aceitação, história romântica e a sobrevivência. E tudo se desdobra a partir do convívio de Preston com a solidão por pouco mais de um ano, tendo como confidente apenas o educado androide Arthur (Michael Sheen), bartender da nave. A trama até possui uma ideia interessante, mas escorrega justamente do ponto em que se inicia a narrativa principal. Jim, durante um momento de frustração após meses sem contato com algo diferente de uma inteligência artificial sem emoções, encontra Aurora por acaso. É quase como um acalento, um consolo ao seu desabafo solitário. Em sua câmara de hibernação, Aurora (é válida a referência bem humorada com o nome da Bela Adormecida) aguarda pelo momento de sua chegada a Homestead II.  E esse cenário montado passa a ser um teste moral para o personagem de Pratt, que vive o dilema da decisão entre continuar sozinho por anos ou despertar Aurora, sabendo que ela também ficará presa com ele. Obviamente que já sabemos a decisão tomada por Jim e então o roteiro engasga com uma leve queda de ritmo ao entrar em sua segunda camada.

      Ambos os protagonistas parecem à vontade em seus papeis e há até uma certa química natural entre os dois, mas o romance inserido naquele contexto soa como uma oportunidade desperdiçada de abordar de forma mais interessante a situação extrema em que se encontram. O amor em meio ao caos surgido de um ambiente aparentemente sem escapatória nos oferece pequenos goles de filmes como Titanic, em uma versão menos memorável. A trilha sonora de Thomas Newman não é marcante mas cumpre seu papel, entrando nos momentos certos e casando com a situação em tela, auxiliando o avanço da história sem parecer invasiva ou exagerada. O exagero talvez fique por conta de alguns diálogos que podem soar bem cafonas e até mesmo meio clichês. A originalidade proposta anteriormente se perde e dá espaço (desculpe a piadinha) a um aglomerado de momentos já vistos em outros romances. Lembra do desperdício de oportunidade mencionado lá em cima? É aqui que ele fica mais evidente.

      O filme melhora ligeiramente em sua terceira camada, quando os personagens já estão desenvolvidos e devidamente apresentados. A nave volta a ser o destaque e aqui é praticamente uma antagonista, tornando-se um enorme obstáculo a ser superado. O ponto negativo deste ato é a aparição desnecessária que ocorre aos 45 do segundo tempo. O que deveria ser uma grande jogada narrativa converte-se em uma terrível conveniência de roteiro e simplesmente joga na tela a provável solução dos problemas. Isso demonstra insegurança por parte do roteirista e resulta em um desfecho pouco inspirado, criando um contraponto muito divergente do que foi apresentado nos minutos iniciais.

      Passageiros não é exatamente um filme ruim, mas com certeza poderia ter sido muito melhor. Ele entrou na fôrma correta mas saiu deformado, sem conseguir acompanhar a própria ideia. O problema de ritmo é sentido com o andamento da trama, o que pode causar uma rápida perda de interesse por parte do telespectador. No fim o longa é apenas um punhado de boas intenções mal executadas, mas é curioso vermos Chris Pratt fazendo de tudo para não ser um senhor das estrelas.