Quando Rogue One, o primeiro spin-off de Star Wars, foi anunciado, muita gente se animou ao ver que aquele universo tão rico e amado seria expandido de uma forma ainda não vista. Pela primeira vez teríamos um novo filme nos mostrando outro ponto de vista de um evento muito importante para o cânone da franquia. A ideia em si é bem simples: ilustrar o texto que inicia o Episódio IV – Uma Nova Esperança. O objetivo do filme é tentar passar para o público a missão dos Rebeldes de roubar os planos da Estrela da Morte, expondo assim sua fraqueza. Mas e a missão do roteiro, será que foi bem sucedida?

      O mais interessante de Rogue One é que ele funciona perfeitamente como um legítimo filme de guerra e espionagem, obviamente, sem deixar de lado a identidade Star Wars. O clima aventuresco e de exploração abordados na trilogia clássica ou os enfadonhos confrontos políticos da trilogia prequel são deixados de lado para uma abordagem mais militar e estratégica. O roteiro da dupla Tony Gilroy e Chris Weitz conseguiu encaixar este plot no contexto da franquia de forma magistral e nos apresenta um filme coeso e fechado. Gilroy é experiente no território da ação e espionagem, tendo roteirizado toda a franquia Bourne e ainda o filme Conduta de Risco. Weitz, por outro lado, caminha pela fantasia através de seu trabalho como roteirista de Lua Nova (da saga Crepúsculo), Cinderela (2015) e A Bússola de Ouro. Essa mistura de elementos contribui para um equilíbrio na trama, o que permite a adrenalina e o universo fictício de Star Wars caminharem lado a lado. A parte sonora também está em boas mãos, com Michael Giacchino entregando uma trilha épica e bonita que nos lembra a todo momento que estamos pisando em um novo território nesse spin-off, mas sem jamais abandonar o que já conhecemos em Guerra nas Estrelas. Sua criação aproxima-se muito do trabalho de John Williams, servindo como uma competente homenagem a quem tanto serviu a este mundo fantástico criado por George Lucas, mas é inegável que as mãos de Giacchino repousam nas partituras. Talvez a permanência de Michael em uma zona de conforto não agrade a todos mas é compreensível a pouca ousadia quando a intenção é dar ao público uma fatia nova de um bolo já conhecido. E quando o bolo é bom, isso vale a pena.

      De uma parte técnica bem elaborada, com o audiovisual sendo um espetáculo para olhos e ouvidos, o maior desafio torna-se convencer aos fãs que os personagens de Rogue One são tão carismáticos quanto os da saga principal. E é aí que o filme peca. Não que Star Wars esteja livre de falhas neste quesito, personagens como o odiado Jar Jar Binks e o próprio Luke Skywalker (Mark Hammil) acabaram sendo uma nota fora do compasso. Um é extremamente irritante e o outro possui carisma zero, perdendo até mesmo para R2-D2 e C-3PO, que são máquinas. Aqui a história se repete com o protagonista e Jyn Erso, personagem de Felicity Jones, termina por ser uma personagem insossa e igualmente livre de carisma. Não há identificação ou ao menos qualquer tipo de vínculo emocional com Jyn, o que liberta o público de preocupações com a mesma. Seu espírito de liderança é pobre e sua motivação não é refletida na atuação de Felicity, o que vai totalmente contra o esperado em um filme voltado principalmente ao combate e à revolução causada pelos Rebeldes. Diego Luna, por outro lado, faz de seu Cassian Andor um verdadeiro revolucionário disposto a tudo para cumprir sua missão. Donnie Yen pisa com o pé direito no universo Star Wars e faz com que seu kung fu seja muito bem vindo onde não poderíamos imaginar. Seu personagem, Chirrut Imwe é um religioso fortemente conectado à Força, mantendo sua fé em toda situação. Ele e Baze Malbus (interpretado por Jiang Wen) já formam uma das duplas mais interessantes a passarem pela franquia, garantindo seu lugar ao lado de Han Solo/Chewbacca e R2-D2/C-3pO. E por falar na máquinas mais amadas do cinema, Rogue One traz consigo mais uma inteligência artificial que dá uma aula de carisma na protagonista: K-2SO, um robô criado originalmente para prestar serviços ao Império e foi reprogramado pelos Rebeldes. Dublado por Alan Tudyk (o Van Wayne de Powerless), K-2SO é o alívio cômico do filme e sempre sai com tiradas sarcásticas que funcionam no roteiro. Sua extrema sinceridade é um dos pontos altos e rende momentos bem divertidos, gerando simpatia logo de cara. Ben Mendelsonh entrega um bom Orson Krennic, mas nada do tamanho de seu talento (já demonstrado com maestria na série Bloodline). Mads Mikkelsen (Galen Erso) e Forest Whitaker (Saw Gerrera) possuem papeis menores do que o esperado mas ambos com sua devida importância na trama.

      Por mais que se trate de um spin-off Rogue One não caminha de forma tão isolada. Pelos motivos já citados no início deste texto a trama encaixa-se perfeitamente na cronologia original e serve como uma ótima prequel de Uma Nova Esperança. E não é exagero, os minutos finais do filme tornam o Episódio IV quase como sua extensão e ainda nos brinda com o que pode ser a melhor cena de Darth Vader, que infelizmente já havia aparecido nos trailers. O fator surpresa certamente renderia um momento ainda mais impressionante. E devido à época em que a produção se passa é quase inevitável as homenagens a personagens que surgiram no longa de 77, tornando este filme obrigatório não apenas para os fãs de longa data mas também para quem acaba de pousar sua nave neste enorme planeta chamado Star Wars. É curioso como Rogue One, em todo seu papel de spin-off, acaba tornando-se um dos melhores e mais interessantes filmes da franquia. Esta é uma bela peça somada a um jogo já amado por gerações e, este início com o pé direito certamente dará ao público uma nova esperança.