Já faz 20 anos desde que J.K.Rowling trouxe ao mundo toda a magia de Harry Potter e a Pedra Filosofal. Começava ali uma saga literária que encantaria o mundo por gerações e seria um estrondoso sucesso. E isso não é fantasia. Não tardou para que aquele universo chegasse às telas de cinema em 2001 e se tornasse uma das maiores bilheterias da Warner. Toda a inocência infanto-juvenil do bruxinho mais conhecido da cultura pop conquistou crianças e também adultos. Inocência que aos poucos foi cedendo espaço para uma trama mais sólida e sombria, o que se concretizou principalmente em O Prisioneiro de Azkaban, terceiro filme da saga. E talvez este seja o principal mérito de Animais Fantásticos e Onde Habitam: conseguir somar em uma mesma história o arquétipo fantasioso do mundo imaginário introduzido lá atrás no primeiro filme com a pegada mais dark das histórias posteriores.

      Veja bem, a proposta não é fazer um filme baseado no livro de mesmo nome, mas sim apresentar a história do autor deste livro: Newt Scamander. Imagine isso como… os bastidores sob o olhar de David Yates, que assumiu a direção do universo de Rowling a partir de A Ordem da Fênix. Newt, encarnado de forma excêntrica e propositalmente tímida por Eddie Redmayne, é um ex-aluno de Hogwarts que tornou-se “magizoologista” (responsável por estudar criaturas mágicas), viajando pelo mundo para catalogar as mais variadas espécies de animais fantásticos. Destaco aqui o capricho da produção para com o visual das criaturas. Todas são únicas, ainda que baseadas em animais reais como cavalos, serpentes, leões, macacos e rinocerontes. Mas as características dadas a cada uma conseguem nos levar para dentro daquela mitologia e é extremamente divertido parar para analisar a aparência dos animais. Um deles é o Pássaro-Trovão, encontrado por Newt no Egito e levado de volta aos EUA, para seu habitat natural no Arizona. Este é o motivo da viagem do protagonista para a Terra do Tio Sam, passando antes por Nova York para realizar uma compra importante. E é aí que as coisas saem do controle. Quatro animais escapam da mala de Scamander e o obriga a iniciar uma busca ferrenha pelas criaturas, mergulhando em uma perigosa trama envolvendo Trouxas e seu preconceito com os bruxos. Animais Fantásticos, aliás, é um filme que já se difere de Harry Potter pelo fato de abordar Trouxas com uma relevância muito maior do que a vista na saga estrelada por Daniel Radcliffe. Aqui os “não-majs”, como são chamados pelos bruxos americanos, participam de forma orgânica da história e representam uma ameaça ainda não vista nesse universo.

      O longa se passa em outro país e em outra época (1926, para ser mais exato), as leis são diferentes e o convívio entre bruxos e Trouxas é uma bomba relógio prestes a explodir. O medo do desconhecido é fortemente presente e a pegada dark mencionada anteriormente se encaixa exatamente na reação das pessoas comuns em relação às que convivem com magia. O uso de uma paleta acinzentada em tomadas externas ilustra a época sombria em que vivem. Há um ar meio “caça às bruxas de Salem”, que ocorreu entre 1962 e 63 em Massachusetts. O nome Salem até aparece em um dos cartazes espalhados pela cidade, mostrando a influência daqueles eventos sobre os cidadãos nova-iorquinos. Principalmente Mary Lou Barebone (interpretada por Samantha Morton), a principal incentivadora de campanhas contra bruxos. Barebone luta pelo tradicionalismo americano e o que ele representa para as famílias que a personagem julga como sendo “normais”, o que enriquece o roteiro (escrito pela própria J.K.Rowling) com discussões a cerca da temática de exclusão social, ainda que em níveis mais fictícios e nem tão aprofundados.

      E por falar em exclusão social, a família Barebone é um dos pontos altos do filme. Não apenas pelos motivos supracitados, mas também pelo desenvolvimento de seu núcleo. Adotados por Mary Lou, Modéstia (Faith Wood-Blagrove) e Credence (em boa atuação de Ezra Miller) são personagens que timidamente oferecem algo a mais, vivendo sob a doutrina retrógrada de sua tutora. Os destaques também vão para Porpentina Goldstein (Katherine Waterston), uma ex-auror, responsável por deter Newt Scamander após o mesmo fazer uso de magia na presença do Trouxa Jacob (Dan Fogler), um carismático empregado de uma fábrica de enlatados, que sonha em abrir sua própria padaria. A interação e a reação de Jacob diante da magia são hilárias, e o misto de horror, surpresa e deslumbramento que há em suas descobertas cativam o público a ponto de aproximá-lo do personagem com uma identificação certeira de como seriam nossas próprias reações. O mundo bruxo é belo, assustador e diferente, e o ecossistema completo existente dentro da mala de Newt é prova cabal destas três características.

      O trabalho de Colin Farrel não chama tanta atenção apesar deu papel ser mais importante do que parece e ainda há uma rápida aparição que provavelmente será melhor abordada na continuação. Ainda há assuntos pendentes, já que uma trilogia está sendo planejada, mas Animais Fantásticos e Onde Habitam já nos trouxe um pedaço do que ficou para trás ao fim de As Relíquias da Morte – Parte 2. Algumas referências presentes no roteiro tratam de embalar nossa nostalgia com um caloroso abraço, como se nos avisasse que Hogwarts jamais será esquecida. A sensação de estar pisando pela primeira vez em território mágico não existe mais e isso é inevitável. Já conhecemos aquele universo, somos bem-vindos lá e podemos abrir a geladeira. Mas este é um filme que traz um novo frescor, nos permitindo agora esticar as pernas sobre a mesa e conhecer outros cômodos da casa. Se essa nova franquia consegue sobreviver por conta própria só o tempo dirá, mas por enquanto sabemos que ainda existe uma dependência do que foi apresentado em Harry Potter, e a confirmação de um jovem Alvo Dumbledore no próximo filme confirma isso. Até mesmo a bela trilha sonora de James Newton Howard lembra um pouco o trabalho de John Williams. Por um lado, toda forma de homenagem é válida, um é complemento do outro. Mas Newt Scamander e seus animais fantásticos merecem a chance de caminhar sem se apoiarem nos muros de Hogwarts.

Ouça: AltEntre – Animais Fantásticos e Onde Habitam

  • Livia Teixeira

    Perfeito!